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EDIÇÃO 6 - ANO 1 - SETEMBRO 2003





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O cômico no amor

Histórias reais mostram que a primeira 'roubada amorosa' também não se esquece


oi paixão à primeira vista. Quando viu aquela morena estonteante, o fotógrafo Renato*, de 41 anos, amargava uma fossa brava no Bar Supremo, na chique região dos Jardins em São Paulo, após ter brigado com sua namorada. Ele era assíduo do Supremo mas nunca vira a morena por lá. Desconfortável com os olhares que ela lançava, Renato relaxou após uns uísques e ficou até satisfeito quando a moça foi até sua mesa e, sacando de um bloco de notas, rabiscou que estava afônica mas não cega - e que ele era de fato muito interessante. Um tanto de uísque mais tarde, mal se aguentando nas pernas, Renato aceitou de bom grado a carona oferecida pela garota.

O que se passou a partir de então foi uma noite tão estupenda quanto inacreditável: ela se recusou a deixá-lo subir sozinho até o apartamento, e, lá, simplesmente o desnudou e o amou com ferocidade. Ao acordar, tonto do excesso de uísque, Renato ficou aterrado. A seu lado, dormindo, estava a namorada - a mesma com quem brigara antes de conhecer a bela morena afônica. Que, aliás, onde se metera?

Tentando encontrá-la, tropeçou e esborrachou a cara na quina da cama. Foi socorrido pela namorada, levou dois pontos no supercílio direito e por fim entendeu o que maquiagem, peruca e um bocado de uísque podem fazer - a morena era a própria namorada. "Eu só queria brincar com ele, quebrar o gelo da briga", diz a advogada Sueli, 39, a então namorada de Renato. "Pensei que ele sabia quem eu era e que estava se divertindo. De manhã é que percebi quanto aquilo tinha ido longe."

Histórias como a de Sueli e de Renato podem parecer fantasiosas mas, em maior ou menor grau, vivem acontecendo. De certa forma, o cômico e a paixão costumam andar de braços dados. Isso vale especialmente para aqueles apaixonados que se deixam arrebatar pela cena amorosa. O caso da assistente social Larissa, de 32 anos, é emblemático. Ela vinha namorando um rapaz há coisa de três meses e, por mais que tentasse, a história não engrenava. Foi quando surgiu aquela viagem de um dia, a trabalho, para o Rio. Larissa estava no Santos Dumont, já voltando a São Paulo, quando o celular tocou. Era um executivo da empresa em que trabalhava. Eles haviam flertado tempos atrás mas não passara disso. Agora, ele a convidava a sair.

"Estou no Rio", ela engasgou.

"Eu sei", ele respondeu. "E eu em São Paulo, perto do aeroporto, esperando."

"Tá bom", ela disse impulsivamente, "não saia daí."

Ele a aguardava no carro com uma garrafa de vinho e taças. Os dois ficaram ali conversando e se beijando, mas ele tinha de cumprimentar uma amiga que fazia aniversário. Resolveram passar rapidamente na festa e depois continuar o que estavam fazendo. Logo ao entrar na festa, Larissa gelou. Parecia impossível mas, abraçado à aniversariante, estava ninguém menos que seu namorado. Quando a viu, ele também ficou consternado e, em seguida, irritado:

"Você não ficou de me ligar quando voltasse?", rosnou.

"E você não ficou de esperar minha ligação?", ela reagiu.

Depois do tiroteio verbal, cada qual foi para um canto. Larissa saiu de lá com o executivo, ambos desconcertados. Terminaram a noite juntos em um motel.

"Foi bom e foi ruim", conta ela. "Percebi que não era aquilo que eu queria, mandei um longo email a meu namorado tentando explicar a confusão e, a partir daí, salvamos a relação", diz a assistente social que, um ano mais tarde, casou com o namorado.

A comicidade no amor, porém, nem sempre tem happy end. Para o psicólogo Cláudio, 29, o resultado da impulsividade se estendeu a dez dias de afastamento do emprego. Ele se encontrou com a esposa depois de um mês longe do Brasil e, ainda no aeroporto, viu nas mãos dela um par de coleiras de couro, daquelas usadas por cães, novinhas. As peças fechavam com fivelas.

"Pensei em comprar algemas", riu ela, "mas só encontrei uma petshop pelo caminho."

Atado à cabeceira da cama e febril com a desenvoltura da amada, Cláudio se empolgou o bastante a fazer todas as peripécias que sua condição amarrada permitia - e talvez até um pouco mais. Quando ela resolveu soltá-lo, Cláudio mal mexia os braços. Com a empolgação, tinha conseguido luxar os dois. Resultado: uma semana e meia na tipóia.

Como se vê, as estripulias da paixão podem deixar marcas que demoram a passar. Mas há casos em que elas simplesmente não passam. Para a restauranteur Ana, de 39 anos, a lembrança de um affair vivido há dez anos é algo que a acompanha até hoje. "Tive um romance com um cara que costumava vir a meu restaurante tarde da noite. Numa daquelas madrugadas ficamos os dois sozinhos. Fomos até a cozinha tomar um café e não deu pra resistir. A gente se jogou na mesa e, no calor do movimento, acabei parando sobre o fogão. Meia hora depois a gente estava na ala de queimados do Hospital das Clínicas. Ganhei um carimbo na bunda que parece tatuagem", se diverte agora Ana.

Mas a graça não precisa ser dolorida para merecer lembrança. Então estudante universitário, o professor Mauro estava em plena cumplicidade com uma colega de classe dentro do carro, em dos estacionamentos da Universidade de São Paulo, quando escutou murros sobre a capota. Semidespidos, ele e a namorada viram no escuro da noite as pernas longas de um cavalo do lado de fora. "Abri a janela para espantar o bicho mas uma mão segurou meu braço. Gelei. Era um dos guardas montados que fazia ronda no campus", conta Mauro.

Guarda: "Vocês não podem ter vindo aqui para fazer uma coisa dessas..."

O casal: "Claro que não viemos pra isso! Viemos para as aulas. Mas está na hora do intervalo."

O policial não pestanejou:

"Carteirinha!"

Eles entregaram os documentos escolares. O guarda olhou detidamente as carteirinhas, mirou os dois no carro e por fim devolveu os documentos:

"Ah, então tá tudo certo", disse se afastando sem mais uma palavra e deixando o casal atônito.

As boas lembranças, especialmente quando envolvem situações-limite como a vivida pelo professor Mauro, muitas vezes só ganham o brilho da comicidade quando o tempo passa. Na hora, elas surgem como aterradoras. Mas dizem que o primeiro amor não se esquece. E, se isso é verdade, também deve ser que a primeira roubada amorosa é igualmente inesquecível.

(* os nomes foram suprimidos a pedido dos entrevistados)


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